Antes de mais quero dizer que possuo o livro"A Guidinha Antes e Depois", edição do Independente, autor Sttau Monteiro, a quem fiz referência num outro artigo, mas não tenho o direito de andar a colar aqui a obra do Luís, ele que me perdoe, ou processe, por, do livro em causa, ter copiado isto na íntegra e aqui colado:
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Conhecemos a Guidinha num domingo à tarde em casa da avó Paula pela
mão do nosso Pai, aliás pela voz dele porque nessa altura em 1969 quando a
Guidinha começou a escrever ainda a Clara e eu não sabíamos ler Essa leitura
em voz alta saboreada vezes três tornou-se num ritual aguardado
semanalmente com curiosidade e entusiasmo Mais tarde aprendidas as letras
ganhámos desenvoltura e vocabulário da melhor maneira a sorrir!
Graças à Guidinha soube pela primeira vez que existia um bairro chamado
Graça onde fui parar em crescida e ainda moro radiante também por isso vai
para dez anos aprendi a descortinar sentidos na ausência deliberada de
pontuação cultivada com mestria pela língua afiada de Luís Sttau Monteiro
(1926-93) e generosamente posta ao serviço da sua lucidez crítica em tempos de
censura o ignóbil lápis azul pude aceitar trinta e tal anos mais tarde este
saboroso desafio duplo o do mergulho retrospectivo numa infância feliz vivida
em estereofonia e na atribulada história recente de Portugal que a minha
geração só pôde decifrar a posteriori.
A Graça da Guidinha como microcosmos do país no seu melhor e no seu
pior respectivamente asfixiado e alimentado pela tacanhez do Estado Novo
resistindo com orgulho bairrista a pertencer à mesma cidade... como se a Graça
não fizesse parte de Lisboa e simultaneamente fosse a sua última reserva moral
(ou mural?) a oposição possível ao Portugal dos Pequenitos em todo o seu
esplendor!
A Guidinha com graça em plena Ditadura no tempo das Conversas em
Família de Marcello Caetano do Se Bem Me Lembro de Vitorino Nemésio da
pasta medicinal Couto do restaurador Olex do creme desodorizante Bily do
Cartaz tv do TV Rural dos pastéis de bacalhau sem bacalhau do E a Vida
Continua do folclore popular e televisivo com ou sem Pedro Homem de Mello
do Museu de Cinema mudo com Lopes Ribeiro e António Melo à voz e ao
piano muitos artistas de variedades outras tantas metáforas do país
amordaçado já em Democracia no tempo das primeiras eleições da Gabriela e
seguinte invasão das telenovelas brasileiras dos concursos televisivos como A
Prata da Casa e A Cornélia da desvalorização da moeda da continuada ausência
do bacalhau das reformas de rabo na boca das excursões oficiais do ultimo
Tango em Paris chegado com jet lag das passagens administrativas expressões
de liberdades conquistadas mas nem sempre digeridas no país recuperado...
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Entre 1969 e 1980 primeiro no suplemento «A Mosca» do Diário de Lisboa
pela mão do «padrinho» Cardoso Pires depois em O jornal pela mão afável de
Afonso Praça graças ao talento de Luís Sttau Monteiro antes a Guidinha
emprestou a sua voz infantil aos que não tinham voz porque às crianças mais
facilmente se perdoa o não terem papas na língua... embora nessa altura nem
sequer fosse permitido festejar o Dia Mundial da Criança depois quando as
vozes se levantaram e por vezes se confundiram a Guidinha em trânsito
sobreviveu teimosamente mostrando que continuava atenta sem
condescendências...
Grata à Guidinha pois também porque pelo caminho encontrei outros
«grilos» desenhados que podiam ser primos dela o Astérix a Mafalda o Calvin
mas só pude reconhecê-los por a ter conhecido tão cedo...
Quase vinte e cinco anos depois da última «Redacção da Guidinha»
muitas idiossincrasias persistem mas o sentido de oportunidade da partilha
mantém-se para que a Guidinha nos lembre sempre que a amargura e a
decepção que os regimes mais ou menos musculados suscitam pode ser
transformada de maneira construtiva num sarcasmo metódico que aposta em
pôr-nos a nu através do ridículo tão temido quando muitos insistem em gabarnos
os fatos.
Antes e depois como nas dietas fora e dentro como nas viagens... Abrir e
fechar os olhos e a boca... Resistir e acreditar sorrindo!
Helena de Gubernais
Antes e Depois
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Grato por não ter sido ainda processado no tempo que decorreu entre o strg+c e o strg+v (o meu cangarço é estrangeiro). Agradeço ao Luís as largas horas de prazer, não só literariamente como teatralmente!
